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II

Há algum tempo atrás (pouco mais de dois anos) passei pela pior fase da minha vida.
Descobri que estava mesmo no fundo de um túnel quando a dada altura ao entrar na casa de banho desviei o olhar para não me ver reflectida no espelho.
Não gostava daquela minha imagem, não que fisicamente houvesse alguma alteração, mas era a pessoa em que me estava a transformar que eu não gostava.
Fixei os punhos na bacia e frente ao espelho verifiquei que aquela mulher que a cada dia que passava se anulava mais, acomodada a constantes infidelidades de carácter não era a mesma mulher firme e decidida que sempre fora.
Pensei que teria que tomar uma decisão. A decisão de não deixar que ninguém anulasse a mulher que sempre tinha sido.
Tinha duas opções: ou continuava a viver num castelo de cristal onde a imagem vista pelo exterior era a de um conto de fadas mas um pesadelo no seu interior ou tomava a decisão de desmoronar esse castelo e correr o risco de me ferir com os estilhaços mas ir atrás daquilo que sempre acreditei existir: num amor verdadeiro, de total entrega, honestidade e reciprocidade.
Fui avisada, olhos nos olhos, de que se tentasse desmoronar o castelo iria pagar caro, pois perderia tudo, desde os amigos ao emprego, e até a minha situação financeira iria ficar caótica. Ou seja, iria viver momentos terríveis.
Ou então, como alternativa, continuaria a viver naquele castelo de cristal, sendo um bibelot para ser mostrada e admirada na rua.
Momentos terríveis foram os que vivi frente ao espelho nessa altura.
Eu sabia as repercussões que a minha decisão iria ter, aliás eu fui avisada, olhos nos olhos como atrás referi, mas decidi em consciência.
Os meus filhos foram os primeiros a ter conhecimento da minha decisão e a resposta deles está para sempre gravada na minha memória: “Mamã, agora és toda só para nós?”

O momento da decisão sempre foi o mais importante para mim.
Quando decido é porque já tenho tudo muito bem pensado e ponderado e já fiz uma avaliação a longo prazo sobre as vantagens e as desvantagens da minha decisão. Os meus filhos foram os que mais me impulsionaram a decidir assim, tanto mais que presentemente sei que se a minha decisão tivesse sido outra, hoje eles cobrar-me-iam isso pois eu não estaria feliz.

31 de Julho de 2006