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A mentira

Porque mentimos?
Não sabemos nós logo à partida que em cada mentira que proferimos, somos nós os primeiros enganados?
Todos mentimos.
Mentimos com e sem pudor.
Mentimos quando no médico nos perguntam quantos parceiros sexuais já tivemos, quantas vezes fazemos sexo por semana, se somos felizes.
Mentimos quando dizemos que está tudo bem.
À partida, são mentiras que não prejudicam ninguém; mas estaremos a ser demasiado verdadeiros se dissermos sempre verdade?
A mentira tem perna curta, tem esquemas e subterfúgios.
Tem óculos escuros e caminha tímida pelas ruas, junto às paredes.
Mas afinal porque mentimos?
Muitas das vezes mentimos para não magoar e continuamos a iludir as pessoas levando-as a acreditar que somos aquilo que pensam.
Mentimos também para não dar azo a discussões e assim se vai protelando a discussão fulcralmente adiada.
Mentimos porque pensamos que é mais simples.
Porque é mais cómodo.
Mentimos para não nos revelarmos quando é a verdade que deveria sempre imperar.
Há alturas em que opto pela verdade, pura e dura, mesmo nas questões mais complicadas.
Mas há alturas em que não consigo e opto por esconder, sem mentir. O que me leva à questão: ocultar não é também mentir?
Do outro lado do espelho está quem nos mente. Esse ser vergonhosamente hipócrita que deixamos de conseguir suportar a partir do momento em que descaradamente o confrontamos. Nele, descarregamos toda a ira, esquecendo e colocando numa gaveta bem escondida as nossas mentiras. Assim, conseguimos ultrapassar por mais algum tempo algo que nos assola: a nossa própria hipocrisia.

Crónica publicada hoje no PNetMulher